Essa versão da criação do homem e da mulher é muito mais encantadora. O homem brotando da mulher à procura do fogo que elas fizeram brotar. Lindíssimo. Mia Couto. Chama-se "Lenda de Namarói".
"(Inspirado no relato da mulher do régulo de Namarói, Zambézia, recolhido pelo padre Elia Ciscato)
Vou contar a versão do mundo, razão de brotarmos homens e mulheres. Aproveitei a doença para receber esta sabedoria: o que vou contar me foi passado em sonho pelos antepassados. Não fosse isso nunca eu poderia falar. Sou mulher, preciso autorização para ter palavra. Estou contando coisas que nunca soube. Por minha boca falam, no calor da febre, os que nos fazem existir e nos dão e retiram nossos nomes. Agora, o senhor me traduza, sem demoras. Não tarda que eu perca a voz que agora me vai chegando.
No princípio, todos éramos mulheres. Os homens não haviam. E assim foi até aparecer um grupo de mulheres que não sabia como parir. Elas engravidavam mas não devolviam ao mundo a semente que consigo traziam. Aconteceu então o seguinte: as restantes mulheres pegaram nessas inférteis e as engoliram, todas inteiras. Ficaram três dias cheias dessa carga, redondas de uma nova gravidez. Passado esse tempo as mulheres que haviam engolido as outras deram à luz. Esses seres que estavam dentro dos ventres ressurgiram mas sendo outros, nunca antes vistos. Tinham nascido os primeiros homens. Estas criaturas olhavam as progenitoras e se envergonhavam. E se acharam diferentes, adquirindo comportamentos e querendo disputas. Eles decidiram transitar de lugar.
Passaram o regato, emigraram para o outro lado do monte Namuli. Assim que se assentaram nessa outra terra viram que o fiozinho de água engrossava. O regato passava a riacho, o riacho passava a rio. Na margem onde se transferiram os homens comiam apenas coisas cruas. E assim ficaram durante tempos. Uma certa noite eles viram, do outro lado, o acender das fogueiras. As mulheres sabiam colher a chama, semeavam o fogo como quem conhece as artes da semente e da colheita. E os homens disseram:
— As mulheres têm uma parte vermelha: é dela que sai o fogo.
Então, o muene que chefiava os homens mandou que fossem buscar o fogo e lho entregassem intacto. E dois atravessaram o rio para cumprir a ordem. Mas eles desconseguiram: as chamas se entornavam, esvaídas. O fogo não tinha competência de atravessar o rio.
— O fogo cansa-se, muene.
Assim disseram ao muene. Desiludido, o chefe atribuiu-se a si mesmo a missão. Atravessou a corrente em noite de chuva cheia. O rio estava em maré plena, tempestanoso. O muene perdeu o corpo, deixou escapar a alma. Acordou na outra margem, mais molhado que peixe. Sentiu que o puxavam, lhe davam ar e luz. Viu então uma mulher que lhe acudia, acendendo um foguinho para que secassem suas roupas. O homem lhe falou, confesssando desejos, invejas e intenções. A mulher disse:
— O fogo é um rio. Deve-se colher pela fonte.
— Essa fonte: nós não sabemos o seu lugar.
Era de noite, a mulher chamou o muene e fez com que se deitasse sobre a terra. E ela se cobriu nele, corpo em lençol de outro corpo. Nenhum homem nunca havia dormido com aquelas da outra margem. A mulher, no fim, lhe beijou os olhos e neles ficou um sabor de gota. Era uma lágrima de sangue, ferida da terra. A lágrima chorava, clamando que se costurassem as duas margens em que sua carne se havia aberto. A mão dele se ensonou sobre o suave abismo dela.
Anichado no colo da mulher, o homem desfiou o seguinte sonho: que ele era o último homem. E que daquele cruzar de corpos que experimentara aquela noite ele se ferira, seu corpo se abrira, veia escancarada. Ele vê o sangue se espalhar no rio e desmaia. Quando recupera vê que a inteira água do rio se convertera em sangue. Segue o curso do rio e repara como o vermelho se vai espessando, líquido em coágulo, coágulo em massa. Uma figura humana se vai formando. Aos poucos, nasce uma mulher. E, no imediato, o rio volta a escorrer, água límpida e pura. Esse foi o sonho. Do qual o muene se esqueceu mesmo antes de acordar.
O chefe madrugou e regressou à sua margem. Na passagem viu que o rio se acalmara, águas em jamais visto sossego. O homem chegou aos outros, sôfrego como se tivesse desaprendido de respirar. Os outros lhe olharam, admirados. Trazia ele um fogo dentro de si? O muene ainda procurava o fôlego:
— Ouçam: lá do outro lado…
E tombou, sem mais. Os outros foram, mandados pelo bicho de quererem saber. Passavam depois de o sol se esconder. De cada vez que um regressava o rio se estreitava, mais a jeito de riacho. Afinal, havia uma margem desconhecida da noite, o outro lado da vida. E um por um, todos realizaram a visita, para além do rio. No final, o curso de água voltou a ser o que tinha sido: um fiozito, timiúdo. O mundo já quase não dispunha de dois lados. Os homens, aos poucos, decidiam ficar no território das mulheres. Na outra, antiga margem, nenhum homem restou.
E os tempos circularam. Um dia uma mulher deu à luz. Os homens se espantaram: eles desconheciam o ato do parto. A grávida foi atrás da casa, juntaram-se as outras mulheres e cortaram a criança onde ela se confundia com a mãe. Decepado o cordão, o um se fez dois, o sangue separando os corpos como o rio antes cindira a terra.
Os homens viram isto e murmuraram: se elas cortam, nós também podemos. Afiaram as facas e levaram os rapazes para o mato. Assim nasceu a circuncisão. Cortavam os filhos para que eles entrassem no mundo e se esquecessem da margem de lá, de onde haviam migrado os homens iniciais. E os homens se sentiram consolados: podiam, ao meno, dar um segundo parto. E assim se iludiram ter poderes iguais aos das mulheres: geravam tanto como elas. Engano deles: só as mulheres cortavam o laço de uma vida em outra vida. Nós deixamos assim, nem procurando neles outro convencimento. Porque, afinal, ainda hoje eles continuam atravessando a correnteza do rio para buscar em nós a fonte do fogo."
Este blog dedica-se à documentação de alguns pensamentos e escritos aleatórios, aqueles que tive a coragem de publicar.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
BOCA (Carlos Drummond de Andrade) - POESIA
Poeminha de terça chuvosa, por Carlos Drummond de Andrade. Chama-se, simplesmente, "Boca)
"Boca: nunca te beijarei.
Boca de outro que ris de mim,
no milímetro que nos separa,
cabem todos os abismos.
Boca de outro que ris de mim,
no milímetro que nos separa,
cabem todos os abismos.
Boca: se meu desejo
é impotente para fechar-te,
bem sabes disto, zombas
de minha raiva inútil.
é impotente para fechar-te,
bem sabes disto, zombas
de minha raiva inútil.
Boca amarga pois impossível,
doce boca (não provarei),
ris sem beijo para mim,
beijas outro com seriedade."
doce boca (não provarei),
ris sem beijo para mim,
beijas outro com seriedade."
(Carlos Drummond de Andrade ANDRADE, C. D. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.)
domingo, 17 de janeiro de 2016
LIBERDADE - Miguel Torga - POESIA
Poeminha lindo de domingo, por Miguel Torga.
LIBERDADE
— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.
— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.
Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
Lupercio Leonardo e Bartolomé Leonardo de Argensola - POESIA
A UMA MULHER QUE SE ENFEITAVA E FICAVA BONITA
Quero nos confessar, Don Juan, primeiro
que a branca e rósea tez de Dona Elvira,
dela mesma não tem, se bem se mira,
mais que haver-lhe custado seu dinheiro.
que a branca e rósea tez de Dona Elvira,
dela mesma não tem, se bem se mira,
mais que haver-lhe custado seu dinheiro.
Mas, além disso, confessar-lhe quero
ser tão encantadora essa mentira
quem em vão com ela competir aspira
beleza igual de rosto verdadeiro
ser tão encantadora essa mentira
quem em vão com ela competir aspira
beleza igual de rosto verdadeiro
Porém, por mais que eu perdido ande
em semelhante engano, não sabemos
que assim também nos mente a Natureza?
em semelhante engano, não sabemos
que assim também nos mente a Natureza?
Porque o céu azul que todos vemos
não é céu nem azul. E é menos grande,
só por ser irreal tanta beleza?
não é céu nem azul. E é menos grande,
só por ser irreal tanta beleza?
(Lupercio Leonardo e Bartolomé Leonardo de Argensola) - extraído do livro de Ferreira Gullar - "O Prazer do Poema)
JOÃOTÓNIO, NO ENQUANTO (CONTO - Mia Couto)
Essa crônica é formidável. A escrita, perfeita. A estória de um homem que se casa com uma mulher fria ("lenha molhada: o fogo lhe resvalia", na voz da personagem) e a manda a um prostíbulo aos cuidados de uma "bacanaleira" para aprender a "inata arte de deitar". Todavia, a mulher volta masculinizada. O resto, só lendo. Muito bom. Texto de Mia Couto
JOÃOTÓNIO, NO ENQUANTO
Mia Couto
Por enquanto, sou Joãotónio. Lhe digo e desdigo, mano: com mulheres me ponho em modos de ser tropa. Pois todo o encontro com elas me aparenta uma batalha. Assim, quando olho uma eu já adianto adivinhação: como será sua voz? Não me intriga a voz visível mas outra, silenciosa, subcorpórea, capaz de tantas linguagens como a água. Outrodizendo: eu quero adivinhar é os gemidos delas, esse resvalar de asas na frente do abismo, o arrepio da alma perdendo morada.
Você sabe, mano: a voz da pessoa esconde o doce sabor do sussurro. A voz encobre o suspiro. E agora já ouço a sua pergunta: porquê esta mania de adivinhar suspiros? É a mesma vontade do general, mano. É o gosto de antecipar a rendição do adversário. É o desejo de antescutar como elas podem requebrar, vencidas e abandonadas.
Às vezes, penso: no fundo, eu tenho medo de mulher. E você não tem? Tem, bem que eu sei. As idéias delas nascem num lugar que está fora do pensamento. Daí vem nosso medo: nós não deciframos o entendimento das mulheres. Suas superioridades nos medonham, mano. Por isso, as concebemos em tratos de batalha, versadas adversárias. Mas volto aos começos, veja você, já eu rangia como uma curva, derraspado em filosofices. Agora recomece também sua audição.
Ainda e por enquanto: sou Joãotónio. Lhe conto, agora, a ficção de minha tristeza. Não é para espelhar por aí. Confio-lhe, mano. Porque não é um qualquer que publica assim as suas dores. O que vou escrever é motivo das vergonhas.
Começo com Maria Zeitona, causadora de todos motivos. Escrevo o nome dessa mulher e ainda me sucede ouvir sua voz, suavezinha que nem asa. Já disse: voz de mulher vale tanto como a carne dela. Pelo menos, a mim me abre os apetites mais que as visões e as tentações.
Como não ia dizendo: Maria Zeitona me apareceu intacta e intacteável. Dela se soltava a suspeita da brasa sob a cinza. Seu corpo falava pelos olhos. E que olhos cristalindos! Casámos, instantâneos. Eu queria sofrer a promessa daquele fogo. Esposava para consumar aquelas ardências que tanto enxamearam meus sonhos. Contudo, meu mano: Maria Zeitona era fria, calafrígida! Eu fazia amores era como se fosse com uma defunta. O que eu com ela praticava eram relações assexuais. E assim ela se foi mantendo mais virgem que Maria. Tentei, retentei, usei as técnicas de minha total experiência. Contudo, mano: não valeu a pena. Zeitona era lenha molhada: o fogo lhe desvalia.
Girei as tácticas, lhe ofereci valiosas surpresas. Experimentei os namoros muito prévios. Até lhe beijei desde a terminal dos pés. Não arrebitou resultado. Beijo não se dá nem se recebe. A vida é que beija, recíproca. Repito, mano: a vida é que nos beija, dois seres se resumindo num único infinito. Conversa afilhada? Está certo, mano, regresso ao cujo assunto de Maria Zeitona.
No final das campanhas, lhe dei um penúltimato: ou ela se açucarava ou eu tomaria as medidas inconvenientes. E foi o que não se sucedeu. Então, mano, me decidi: entregaria Zeitona a uma prostituta. Sim, Zeitoninha faria um estágio com uma dessas profissionais de roça e destroca. Assim ela aprenderia a enrodilhar lençóis. Enfim, ela cometeria o pecado imortal.
Não demorei a escolher a adequada mestra: seria Maria Mercante, a mais famosa bacanaleira, mulher bastante inata nas artes de deitar. Escura, retintadinha, dona de deliciosos recheios. Neste mundo há dois seres que se apoiam no rabo para subir na vida: o javali e Maria Mercante. Falei bem com a rabuda:
Não demorei a escolher a adequada mestra: seria Maria Mercante, a mais famosa bacanaleira, mulher bastante inata nas artes de deitar. Escura, retintadinha, dona de deliciosos recheios. Neste mundo há dois seres que se apoiam no rabo para subir na vida: o javali e Maria Mercante. Falei bem com a rabuda:
– Por favor, lhe ensine as viragens de núpcias!
– Se descanse, senhor. Corpo de mulher não basta ter qualidades: é preciso ter qualificações.
E a qualificada prostituta prosseguiu. Falou conversas deslocadas, quem sabe se para aumentar o preço das lições. Zeitona deixaria as virgindades mais arrependida que aquela, única que concebeu sem pecado. Pois, ela conhecia era a versão do exacto: Virgem Maria tinha, afinal, recusado a visita do Espírito Santo. Respondera nestes termos: ter filho sem fazer amor? Qual o gozo? Deitar fora o prato e ficar com o arroto? É essa a lição que vou dar a Zeitona: nada de platonismos: sexo à primeira vista.
Lhe interrompi, desviando a conversa dos anjos para minhas materiais aflições. Consoante pagamentos antecipados, Maria Mercante aceitou o serviço. Eu que ficasse repousado: minha esposa sairia do curso mais acesa que o pino do meio-dia. Que eu me haveria tanto de despentear com ela que até o colchão reclamaria urgentes remendos. E Zeitona lá foi para um lugar desses, de baixa seriedade. Vamos lá: um pronto-a-despir.
Passaram semanas, o curso terminado, minha esposa regressou a casa. Vinha, de facto, mudada. Seus modos eram demasiado estranhos mas não da maneira que eu esperava. Caramba, mano, até ponho vergonha nesta confissão: Zeitoninha vinha com jeitos de homem! Ela que era tão metida nos ombros dela agora parecia um manda-bátegas. Isto é, isto foi: minha Zeitona se inchara de masculina. E não era só no momento dos namoros. Era sempre e em tudo. Na voz, inclusive. Tudo nela se emendara, mano, a pontos de eu coçar as minhas machas partes para me confirmar. Digo mesmo: ela é que me empurrava a deitar, acredite, ela é que me desapertava, me ia roubando os ares. Eu ficava para ali sem nenhuma iniciativa, executado e mandado como se fosse rapariga iniciada. E a coisa continua até o presente actual. O problema, mano, é o seguinte: eu até gosto! Me custa admitir, tanto que hesito em escrever. Mas a verdade é que me agrada esta nova condição, sendo-me dada a passiva idade, o lugar de baixo, a vergonha e o receio.
E é isto, mano. Me explique, caso lhe chegue o entendimento. Eu não sei qual pensamento hei-de escolher. Primeiro, ainda me justifiquei: afinal, a verdade tem versões que até são verdadeiras. Como, por um exemplo: nos amores sexuais não há macho nem fêmea. Os dois amantes se fundem num único e bipartido ser. Não haveria, portanto, razões para meu rebaixamento. Está-me a seguir, meu irmão?
Mas agora, no momento que lhe escrevo, nem mais me apetece explicação. Quero desraciocinar. Em cada dia não espero senão a noite, as brandas tempestades em que eu sou Joãotónio e Joanantónia, masculina e feminino, nos braços viris de minha esposa. Por enquanto, mano, ainda sou Joãotónio. Me vou despedindo, vagarinhoso, do meu verdadeiro nome.
(In: COUTO, Mia. Estórias abensonhadas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.)
À MINHA NOIVA - ARTHUR AZEVEDO (POESIA)
Uma das mais lindas declarações de amor que já li. Coisa de 2min23seg. Coisa de Arthur Azevedo:
À MINHA NOIVA
"Tu és flor; as tuas pétalas
orvalho lúbrico molha;
eu sou flor que se desfolha
no verde chão do jardim."
Têm por moda agora os líricos
versos fazer neste estilo...
— Tu és isso, eu sou aquilo,
tu és assado, eu assim...
orvalho lúbrico molha;
eu sou flor que se desfolha
no verde chão do jardim."
Têm por moda agora os líricos
versos fazer neste estilo...
— Tu és isso, eu sou aquilo,
tu és assado, eu assim...
Às negaças deste gênero,
Carlotinha, não resisto:
vou dizer que tu és isto,
que aquilo sou vou dizer;
tu és um pé de camélia,
eu sou triste pé de alface,
tu és a aurora que nasce,
eu sou fogueira a morrer.
Carlotinha, não resisto:
vou dizer que tu és isto,
que aquilo sou vou dizer;
tu és um pé de camélia,
eu sou triste pé de alface,
tu és a aurora que nasce,
eu sou fogueira a morrer.
Tu és a vaga pacífica,
eu sou a onda encrespada,
tu és tudo, eu não sou nada,
nem por descuido doutor;
tu és de Deus uma lágrima,
eu sou de suor um pingo,
eu sou no amor o gardingo,
tu Hermengarda no amor.
eu sou a onda encrespada,
tu és tudo, eu não sou nada,
nem por descuido doutor;
tu és de Deus uma lágrima,
eu sou de suor um pingo,
eu sou no amor o gardingo,
tu Hermengarda no amor.
Os fatos restabeleçam-se,
ó dona dos pés pequenos:
eu sou homem -- nada menos,
tu és mulher -- nada mais;
eu sou funcionário público,
tu minha esposa bem cedo,
eu sou Artur Azevedo,
tu és Carlota Morais.
ó dona dos pés pequenos:
eu sou homem -- nada menos,
tu és mulher -- nada mais;
eu sou funcionário público,
tu minha esposa bem cedo,
eu sou Artur Azevedo,
tu és Carlota Morais.
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
Mortais
MORTAIS
“Eles
estão se adiantando, os meus amigos./ Sei que é útil a morte
alheia / para quem constrói seu fim./ Mas eles estão indo,
apressados,/ deixando filhos, obras, amores inacabados/ e revoluções
por terminar./ Não era isto o combinado.// Alguns se despedem
heroicos,/ outros serenos./ Alguns se rebelam./ O bom seria partir
pleno.// O que faço? Ainda agora/ um apressou seu desenlaçe./ Sigo
sem pressa. A morte/ exige trabalho, trabalho lento// como quem
nasce”.
(“Estão se Adiantando”, Affonso Romano de Sant’Anna)
Estava decidido a
escrever sobre um tema mais ameno. Alguma atualidade que vem sendo
debatida nos jornais ou nas redes sociais, que andam prenhes de
material. Refugiados sírios, feminismo no Enem, a carestia dos
brasileiros, enfim. Eu até já havia concebido uma estória
interessante sobre violência urbana e aplicativos de celulares
(esta, aliás, uma boa estória, mas que ficará para uma próxima
oportunidade, se me for concedida).
Mas, justamente
hoje, assisti um filme a que há muito tempo me propus a assistir:
“Invasões Bárbaras” (“Les
invasions barbares”,
de Denys Arcand, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro do ano
de 2003) e que trata justamente da morte e daquilo que, no final de
nossas vidas, realmente importa.
Já faz algum tempo
que venho me preocupando com a morte, cuja melhor definição, a meu
juízo, é a que Vinícius de Moraes cunhou em seu maravilhoso
“Soneto da Fidelidade”: a “angústia
de quem vive”.
Quem vive sente angústia. Pode até não temer a morte, mas
angústia sente, é induvidoso.
E por que me
preocupo com a morte, se doente não estou, se meus familiares e
amigos gozam de boa saúde? O que me parece é que, a partir de
determinada idade (e, no meu caso, o marco fatal foi o advento de 40º
aniversário), paramos de somar e começamos a subtrair: 30, 20, 10,
5 anos. “Ipso
facto”, nos
apegamos cada vez mais ao tempo que nos resta e que teima em nos
escapar (“tempus
fugit”,
como diziam os antigos). A isso alio a idade de nossos pais, tios,
avós, cuja contagem regressiva já vai mais avançada.
E, devo dizer, não
só o medo da perda nos assombra, mas também o modo como os
derradeiros dias nossos e de nossos amados serão vividos.
De fato, as pessoas,
nos dias atuais, graças aos avanços da medicina moderna e à
ganância da indústria farmacêutica, já não morrem mais “ex
abrupto”:
vão morrendo aos poucos, minguando, a chama vital mantendo-se
acesa à força de intubações e outros métodos artificiosos. São
raros os casos em que é dado a um moribundo expirar nos braços dos
seus familiares e amigos, no lugar que escolheu, nas condições que
elegeu para tanto, talvez ouvindo aquela canção que mais marcou a
sua passagem por este plano. A tendência cada vez maior é mesmo a
morte lenta e indigna nos leitos das UTIs, rodeados por equipamentos
e circundado por outros pacientes na mesma condição desumana, tendo
por fundo musical o “pi-pi-pi” dos monitores e engenhocas de
sustentação da vida. Sustentação da vida? Qual vida? Sustentar
o quê?
O tema foi tratado
com invulgar humanismo pelo autor americano Dr. Atul Gawande em seu
livro “Mortais” (cujo título foi tomado de empréstimo para este
artigo). A obra narra casos de doenças terminais em que pacientes
escolhem a terapia de “cuidados paliativos” no lugar dos
“cuidados intensivos”, minimizando as dores e aflições dos
momentos derradeiros e procurando agregar ao resto de suas vidas,
tanto quanto possível, mais momentos felizes e maior fortalecimento
de enlaces afetivos.
Há uma passagem
curiosa desse livro em que um emérito professor de psicologia
deixou, de forma verbal, seu “testamento vital” para o filho:
enquanto pudesse tomar sorvete de chocolate e assistir futebol na TV,
que se fizesse tudo o que estivesse ao alcance para mantê-lo vivo.
Observadas essas condições mínimas, para ele valeria a pena
continuar a viver. Isso assegurou ao filho tranquilidade na hora da
tomada das decisões nos momentos cruciais e, após a morte,
propiciou um luto mais tranquilo a todos os familiares.
Não faz 15 dias,
faleceu o inesquecível Luiz Carlos Miele. Miele, figura conhecida
de todos aqueles que contam mais 40 anos de idade, viveu
intensamente. Foi locutor de rádio, integrante da turma da Bossa
Nova, adorava a vida (especialmente a noturna), produziu inúmeros
shows. Enfim, comeu a vida com colher grande. Como morreu? De mal
súbito. Em um átimo, apagou-se a chama vital, “sem
dramas, sem gramas”.
Simples assim.
Se eu pudesse
escolher, gostaria de ter uma morte “miélica”. Morrer como um
passarinho, como diziam nossos avós. Não temo perder a vida. Temo
deixar para trás um passado de memórias de pessoas e fatos
maravilhosos.
Voltando ao filme
“Invasões Bárbaras”, Rémy, um professor universitário que
viveu sua vida de modo intenso e até libertino, reconcilia-se com o
filho e este, à revelia de sua vontade, mas amparado pela mãe
(ex-mulher de Rémy), proporciona-lhe um final tranquilo, numa casa
de campo, cercado de antigos amigos, tendo as dores da doença
edulcoradas por generosas doses de heroína contrabandeadas, a mesma
heroína que escolheu para ser o veículo de sua passagem para o
outro plano.
É um belíssimo
filme este “Invasões Bárbaras”. Tão belo quanto ele, a trilha
sonora escolhida (a música “L’amitié”,
de Jean-Max Rivière e Gérard Bourgeois, que não foi feita para o
filme (data de muitas décadas antes), mas se encaixou à perfeição
na trama).
Eis a letra da
canção, em tradução livre: “Muitos
de meus amigos vieram das nuvens./ Com o sol e a chuva como bagagem,/
Fizeram a estação da amizade sincera,/ A mais bela das quatro
estações da Terra.// Têm a doçura das mais belas paisagens/ E a
fidelidade dos pássaros migradores./ Em seu coração está gravada
uma ternura infinita,/ Mas, às vezes, uma tristeza aparece em seus
olhos.// Então, vêm se aquecer comigo./ E você também virá//
Poderá retornar às nuvens/ E sorrir de novo a outros rostos,/
Distribuir à sua volta um pouco de sua ternura./ Quando alguém
quiser esconder sua tristeza,// Como não sabemos o que a vida nos
dá,/ Talvez eu não seja ninguém./ Se me resta um amigo que
realmente me compreenda,/ Me esquecerei das lágrimas e penas.//
Então, talvez eu vá até você,/ Aquecer meu coração com sua
chama”.
Nestes dias, ando
lendo a maravilhosa autobiografia de Oliver Sacks ("Sempre
em movimento – Uma vida"
(Companhia das Letras)), neurologista vencido pelo câncer no dia 30
de agosto último, autor, dentre outras obras lindas, de “Tempo de
Despertar”, levada às telas de cinema em filme estrelado por Robin
Williams e Robert De Niro (Robin Williams viria a decretar o fim de
sua vida em agosto de 2014).
Sacks teve uma vida
incrivelmente intensa. Em entrevista que concedeu ao Jornal “New
York Times”,
em fevereiro deste ano, ocasião em que revelou seu estado terminal
de saúde, escreveu esta pérola que divido com os pacientes
leitores: “Agora,
cabe a mim escolher como viver os anos que me restam. [...]Tenho que
viver da maneira mais rica, intensa e produtiva possível. [...] Nos
últimos dias, pude ver minha vida de outro ângulo, como uma
paisagem, e com um forte senso de conexão entre as partes. Isso não
significa que me entreguei. Pelo contrário, me sinto intensamente
vivo, e eu quero e espero, no tempo que me resta, aprofundar minhas
amizades, me despedir das pessoas que amo, escrever mais, viajar se
eu tiver forças, e alcançar novos conhecimentos. Mas também haverá
tempo para um pouco de diversão (e até algumas tolices).
[...]
Não
posso fingir que não tenho medo. Mas meu sentimento predominante é
a gratidão. Eu amei e fui amado; doei-me e muito me foi dado; eu li,
viajei, pensei e escrevi. Eu me relacionei com o mundo, o
relacionamento especial entre escritores e leitores. Acima de tudo,
eu fui um ser humano ciente, um animal pensante, neste belo planeta,
e só isso já foi um enorme privilégio e aventura.”
Eis o meu testamento
vital: quero morrer como Rémy, de “Invasões Bárbaras”,
cercado pelos meus queridos, e animado pela coragem e pela altivez de
Oliver Sacks. . Ah! E se a trilha sonora puder ser “My
Way”,
interpretada por Elvis Presley, ou “Thank
You”,
do Led Zeppelin, seria fantástico!
Como não pretendo,
entretanto, deixar a vida tão cedo, finalizo lembrando a canção
“Stay
Around a Little Longer”
(https://www.youtube.com/watch?v=emyt-agLE_s),
dueto
de BB King (r.i.p.)
e
Buddy Guy, desde já agradecendo ao Senhor por me permitir ficar aqui
um pouco mais.
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
NOVO CPC x Súmula - Direito Intertemporal - Honorários - Compensação
CONCLUSÃO
Autos
nº 0471.11.008001-0
Aos
10 de agosto de 2015
Faço
estes autos conclusos ao MM. Juiz de Direito
O
Escrivão, ___________________
Vistos.
Cuida-se
de
embargos
de
declaração
opostos
por
CEMIG
DISTRIBUIÇÃO S.A. em
relação
à
sentença de
fólios 101-103.
Alega
a embargante a existência de omissão no julgado porque, conquanto
tenha-se reconhecido a sucumbência recíproca, deixou-se de se
manifestar a respeito da compensação dos honorários advocatícios,
ex
vi
do verbete nº 306 da Súmula da jurisprudência predominante no
egrégio Superior Tribunal de Justiça.
É
o
RELATÓRIO
do
quanto
necessário.
Passo
a
FUNDAMENTAR
e
DECIDIR.
Conheço
do
recurso
porque
tempestivos.
No
mérito, em que pese o aviso deste magistrado, no sentido da
impossibilidade de compensação da verba honorária, o certo é que
sobreveio, após candentes debates, o teor do verbete sumular acima
mencionado. Assim, sempre reverente à função uniformizadora da
jurisprudência emanada das Cortes Superiores, mesmo à falta de
vinculação, verguei-me àquele entendimento.
Entrementes,
a tese que havia restado vencida no âmbito do Tribunal da Cidadania,
a qual perfilhava este magistrado, restou consagrada de
lege
lata
no artigo 85, §14 do Código de Processo Civil, ainda em período de
vacatio
legis.
Eis,
portanto, que o entendimento chancelado jurisprudencialmente estaria
com seu supedâneo normativo em seus estertores (nesse sentido:
Bueno, Cassio Scapinella, 'Novo Código de Processo Civil Anotado'.
São Paulo: Saraiva, 2015, p. 101).
Confira-se
o enunciado nº 244 do Fórum Permanente de Processualistas Civis,
aprovado no Encontro realizado no período de 05 a 07/12/2014 na
Capital Mineira, sob a coordenação do eminente Professor Fredie
Didier Jr., verbatim:
Ficam
superados o enunciado 306 da súmula do STJ (“Os honorários
advocatícios devem ser compensados quando houver sucumbência
recíproca, assegurado o direito autônomo do advogado à execução
do saldo sem excluir a legitimidade da própria parte”) e a tese
firmada no REsp Repetitivo n. 963.528/PR, após a entrada em vigor do
CPC, pela expressa impossibilidade de compensação.
O
que se tem hoje, portanto, é uma jurisprudência uniformizante em
suas vascas, já com termo certo para a cessação de seus efeitos, e
um comando normativo cuja eficácia encontra-se paralisada até o
advento desse mesmo termo.
É
dizer: Eventuais recursos que venham a ser julgados após o prazo de
vacatio
deverão observar a nova tessitura normativa, a teor do artigo 14 do
novel códice.
Já
há instaurada, portanto, mesmo antes da vigência do novo codex,
situação anti-isonômica, pois que a solução para hipóteses
idênticas pendentes de julgamento após a sanção da Lei nº
13.105, de 2015 merecerão soluções díspares conforme a data do
trânsito em julgado, o que dependerá, em maior ou menor instância,
da disposição da parte para interpor recurso, ainda que seja
somente para postecipar a formação da res
iudicata.
E
pertencendo, como de lei, os honorários ao advogado a parte que por
ele é patrocinada poderá ter a sua prestação jurisdicional
atrasada apenas para o acertamento dessa pendência, o que não me
parece ir ao encontro dos modernos cânones processuais.
Como
vantagem adicional, pode-se impedir, na medida do possível, a
interposição de recursos em prejuízo da presentânea atuação das
Cortes estaduais e regionais.
Posto
o conflito nestes termos, entendo por prestigiar a norma posta,
conquanto ainda não vigente, mantendo incólume a sentença
verrumada, não por conferir eficácia a uma norma que não a tem
[que
fique claro],
mas por ela corresponder a um entendimento a respeito do vigente
artigo 23 da Lei nº 8.906, de 1994.
Nessa
ordem de considerações, CONHEÇO
dos embargos e a eles NEGO
PROVIMENTO.
P.R.I..
Pará
de
Minas,
Wednesday, 21 de October de 2015
PEDRO
CAMARA
RAPOSO-LOPES
Juiz
de
Direito
RECEBIMENTO
Aos
___ de _______de 2015
Recebi
estes autos
O
Escrivão, ___________________
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
Pela Dignidade na Morte
"O Brasil não sabe cuidar de seus pacientes no fim da vida." "no Brasil, que tem dor, morre com muita dor". "No Brasil, não há uma educação para a morte, não estamos preparados para enfrentá-la." Estes são trechos de matéria publicada no jornal O Globo de hoje, que veicula pesquisa feita por entidade britânica morbidamente intitulada "Índice de Qualidade de Morte" e que coloca o Brasil na 42ª posição de um total de 80 países. Recentemente, li quatro livros que me chamaram a atenção para este problema: "Mortais", de Atul Gawande, "A Morte de Ivan Ilitch", de Tolstói, "A Balada de Adam Henry", de Ian McEwan e "A Visita Cruel do Tempo" de Jennifer Egan. Estou absolutamente convencido de que o sistema de cuidados paliativos e a ortotanásia são as únicas maneiras de assegurar um final de vida digno e, tanto quanto possível, indolor aos doentes terminais e aos pacientes que padecem de doenças crônicas. O 'suicídio assistido', aprovado nesta semana pelo Estado da Califórnia, nos EUA, após 2 anos de sérios debates e já admitido no Estado do Oregon desde 1994 e na Holanda de 2001, é parte desse contexto. O fato é que a prática indiscriminada da distanásia, que vem alimentando os cofres já prenhes de dinheiro da indústria farmacêutica, causa sofrimento ao doente e depressão aos familiares, após a morte do parente querido submetido a condições desumanas e degradantes de tratamento. A liberdade de consciência, consistente no direito de escolher o que se deseja para os momentos mais angustiantes da trajetória terrena, deve se sobrepor ao direito à vida, quando esta se mostre inviável ou assaz dolorosa, tão dolorosa que já não mais valha a pena vivê-la. É projeção do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, consagrado na Constituição da República. Direito a uma morte digna. Sou fã do "Testamento Vital", que consiste em "declaração escrita da vontade de um paciente quanto aos tratamentos aos quais ele não deseja ser submetido caso esteja impossibilitado de se manifestar", na precisão definição de LIPPMANN (Testamento vital: direito a dignidade. São Paulo: Matriz: 2013). É que no chorrilho de emoções que se seguem à constatação de uma situação terminal, geralmente a tendência de pacientes e familiares é de, contaminados pelo desespero, tomar providências inúteis e indignas, que povoarão para sempre a lembrança dos que ficarem. No livro de Gawande, acima citado, um emérito professor de psicologia deixou, de forma verbal, seu testamento vital para o filho, mais ou menos nos seguintes termos: enquanto eu puder tomar sorvete de chocolate e assistir futebol na TV, faça tudo o que estive ao seu alcance. Isso assegurou ao filho tranquilidade na tomada de decisões no momento mais crucial e, após a morte, propiciou um luto mais tranquilo. Lembro-me das últimas recordações que tenho de minha avó Mariazinha ( Maria Helena Lopes, Maria Beatriz Camara, Beatriz Lopes,Eduardo Camara Raposo Lopes), num CTI, entubada, com lapsos de consciência. Se tivessem dado a ela a oportunidade de um testamento vital, anos antes, intuo que ela dissesse: "façam tudo o que puderem enquanto eu puder tomar meu café com leite e assistir minha novela das 8". Isso poderia ter poupado tanta depressão aos filhos. De minha parte, eu já fiz mentalmente meu testamento vital. E espero que meus familiares façam o mesmo. Cuida-se de um ato de generosidade para consigo próprio e de caridade para os que ficam. Depois, nos entendemos com Deus.
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