quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Lupercio Leonardo e Bartolomé Leonardo de Argensola - POESIA

A UMA MULHER QUE SE ENFEITAVA E FICAVA BONITA
Quero nos confessar, Don Juan, primeiro
que a branca e rósea tez de Dona Elvira,
dela mesma não tem, se bem se mira,
mais que haver-lhe custado seu dinheiro.
Mas, além disso, confessar-lhe quero
ser tão encantadora essa mentira
quem em vão com ela competir aspira
beleza igual de rosto verdadeiro
Porém, por mais que eu perdido ande
em semelhante engano, não sabemos
que assim também nos mente a Natureza?
Porque o céu azul que todos vemos
não é céu nem azul. E é menos grande,
só por ser irreal tanta beleza?
(Lupercio Leonardo e Bartolomé Leonardo de Argensola) - extraído do livro de Ferreira Gullar - "O Prazer do Poema)

LEMINSKI - POESIA

JOÃOTÓNIO, NO ENQUANTO (CONTO - Mia Couto)

Essa crônica é formidável. A escrita, perfeita. A estória de um homem que se casa com uma mulher fria ("lenha molhada: o fogo lhe resvalia", na voz da personagem) e a manda a um prostíbulo aos cuidados de uma "bacanaleira" para aprender a "inata arte de deitar". Todavia, a mulher volta masculinizada. O resto, só lendo. Muito bom. Texto de Mia Couto
JOÃOTÓNIO, NO ENQUANTO
Mia Couto
Por enquanto, sou Joãotónio. Lhe digo e desdigo, mano: com mulheres me ponho em modos de ser tropa. Pois todo o encontro com elas me aparenta uma batalha. Assim, quando olho uma eu já adianto adivinhação: como será sua voz? Não me intriga a voz visível mas outra, silenciosa, subcorpórea, capaz de tantas linguagens como a água. Outrodizendo: eu quero adivinhar é os gemidos delas, esse resvalar de asas na frente do abismo, o arrepio da alma perdendo morada.
Você sabe, mano: a voz da pessoa esconde o doce sabor do sussurro. A voz encobre o suspiro. E agora já ouço a sua pergunta: porquê esta mania de adivinhar suspiros? É a mesma vontade do general, mano. É o gosto de antecipar a rendição do adversário. É o desejo de antescutar como elas podem requebrar, vencidas e abandonadas.
Às vezes, penso: no fundo, eu tenho medo de mulher. E você não tem? Tem, bem que eu sei. As idéias delas nascem num lugar que está fora do pensamento. Daí vem nosso medo: nós não deciframos o entendimento das mulheres. Suas superioridades nos medonham, mano. Por isso, as concebemos em tratos de batalha, versadas adversárias. Mas volto aos começos, veja você, já eu rangia como uma curva, derraspado em filosofices. Agora recomece também sua audição.
Ainda e por enquanto: sou Joãotónio. Lhe conto, agora, a ficção de minha tristeza. Não é para espelhar por aí. Confio-lhe, mano. Porque não é um qualquer que publica assim as suas dores. O que vou escrever é motivo das vergonhas.
Começo com Maria Zeitona, causadora de todos motivos. Escrevo o nome dessa mulher e ainda me sucede ouvir sua voz, suavezinha que nem asa. Já disse: voz de mulher vale tanto como a carne dela. Pelo menos, a mim me abre os apetites mais que as visões e as tentações.
Como não ia dizendo: Maria Zeitona me apareceu intacta e intacteável. Dela se soltava a suspeita da brasa sob a cinza. Seu corpo falava pelos olhos. E que olhos cristalindos! Casámos, instantâneos. Eu queria sofrer a promessa daquele fogo. Esposava para consumar aquelas ardências que tanto enxamearam meus sonhos. Contudo, meu mano: Maria Zeitona era fria, calafrígida! Eu fazia amores era como se fosse com uma defunta. O que eu com ela praticava eram relações assexuais. E assim ela se foi mantendo mais virgem que Maria. Tentei, retentei, usei as técnicas de minha total experiência. Contudo, mano: não valeu a pena. Zeitona era lenha molhada: o fogo lhe desvalia.
Girei as tácticas, lhe ofereci valiosas surpresas. Experimentei os namoros muito prévios. Até lhe beijei desde a terminal dos pés. Não arrebitou resultado. Beijo não se dá nem se recebe. A vida é que beija, recíproca. Repito, mano: a vida é que nos beija, dois seres se resumindo num único infinito. Conversa afilhada? Está certo, mano, regresso ao cujo assunto de Maria Zeitona.
No final das campanhas, lhe dei um penúltimato: ou ela se açucarava ou eu tomaria as medidas inconvenientes. E foi o que não se sucedeu. Então, mano, me decidi: entregaria Zeitona a uma prostituta. Sim, Zeitoninha faria um estágio com uma dessas profissionais de roça e destroca. Assim ela aprenderia a enrodilhar lençóis. Enfim, ela cometeria o pecado imortal.
Não demorei a escolher a adequada mestra: seria Maria Mercante, a mais famosa bacanaleira, mulher bastante inata nas artes de deitar. Escura, retintadinha, dona de deliciosos recheios. Neste mundo há dois seres que se apoiam no rabo para subir na vida: o javali e Maria Mercante. Falei bem com a rabuda:
– Por favor, lhe ensine as viragens de núpcias!
– Se descanse, senhor. Corpo de mulher não basta ter qualidades: é preciso ter qualificações.
E a qualificada prostituta prosseguiu. Falou conversas deslocadas, quem sabe se para aumentar o preço das lições. Zeitona deixaria as virgindades mais arrependida que aquela, única que concebeu sem pecado. Pois, ela conhecia era a versão do exacto: Virgem Maria tinha, afinal, recusado a visita do Espírito Santo. Respondera nestes termos: ter filho sem fazer amor? Qual o gozo? Deitar fora o prato e ficar com o arroto? É essa a lição que vou dar a Zeitona: nada de platonismos: sexo à primeira vista.
Lhe interrompi, desviando a conversa dos anjos para minhas materiais aflições. Consoante pagamentos antecipados, Maria Mercante aceitou o serviço. Eu que ficasse repousado: minha esposa sairia do curso mais acesa que o pino do meio-dia. Que eu me haveria tanto de despentear com ela que até o colchão reclamaria urgentes remendos. E Zeitona lá foi para um lugar desses, de baixa seriedade. Vamos lá: um pronto-a-despir.
Passaram semanas, o curso terminado, minha esposa regressou a casa. Vinha, de facto, mudada. Seus modos eram demasiado estranhos mas não da maneira que eu esperava. Caramba, mano, até ponho vergonha nesta confissão: Zeitoninha vinha com jeitos de homem! Ela que era tão metida nos ombros dela agora parecia um manda-bátegas. Isto é, isto foi: minha Zeitona se inchara de masculina. E não era só no momento dos namoros. Era sempre e em tudo. Na voz, inclusive. Tudo nela se emendara, mano, a pontos de eu coçar as minhas machas partes para me confirmar. Digo mesmo: ela é que me empurrava a deitar, acredite, ela é que me desapertava, me ia roubando os ares. Eu ficava para ali sem nenhuma iniciativa, executado e mandado como se fosse rapariga iniciada. E a coisa continua até o presente actual. O problema, mano, é o seguinte: eu até gosto! Me custa admitir, tanto que hesito em escrever. Mas a verdade é que me agrada esta nova condição, sendo-me dada a passiva idade, o lugar de baixo, a vergonha e o receio.
E é isto, mano. Me explique, caso lhe chegue o entendimento. Eu não sei qual pensamento hei-de escolher. Primeiro, ainda me justifiquei: afinal, a verdade tem versões que até são verdadeiras. Como, por um exemplo: nos amores sexuais não há macho nem fêmea. Os dois amantes se fundem num único e bipartido ser. Não haveria, portanto, razões para meu rebaixamento. Está-me a seguir, meu irmão?
Mas agora, no momento que lhe escrevo, nem mais me apetece explicação. Quero desraciocinar. Em cada dia não espero senão a noite, as brandas tempestades em que eu sou Joãotónio e Joanantónia, masculina e feminino, nos braços viris de minha esposa. Por enquanto, mano, ainda sou Joãotónio. Me vou despedindo, vagarinhoso, do meu verdadeiro nome.
(In: COUTO, Mia. Estórias abensonhadas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.)

À MINHA NOIVA - ARTHUR AZEVEDO (POESIA)

Uma das mais lindas declarações de amor que já li. Coisa de 2min23seg. Coisa de Arthur Azevedo:
À MINHA NOIVA
"Tu és flor; as tuas pétalas 
orvalho lúbrico molha;
eu sou flor que se desfolha
no verde chão do jardim."
Têm por moda agora os líricos
versos fazer neste estilo...
— Tu és isso, eu sou aquilo,
tu és assado, eu assim...
Às negaças deste gênero,
Carlotinha, não resisto:
vou dizer que tu és isto,
que aquilo sou vou dizer;
tu és um pé de camélia,
eu sou triste pé de alface,
tu és a aurora que nasce,
eu sou fogueira a morrer.
Tu és a vaga pacífica,
eu sou a onda encrespada,
tu és tudo, eu não sou nada,
nem por descuido doutor;
tu és de Deus uma lágrima,
eu sou de suor um pingo,
eu sou no amor o gardingo,
tu Hermengarda no amor.
Os fatos restabeleçam-se,
ó dona dos pés pequenos:
eu sou homem -- nada menos,
tu és mulher -- nada mais;
eu sou funcionário público,
tu minha esposa bem cedo,
eu sou Artur Azevedo,
tu és Carlota Morais.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Mortais

MORTAIS


Eles estão se adiantando, os meus amigos./ Sei que é útil a morte alheia / para quem constrói seu fim./ Mas eles estão indo, apressados,/ deixando filhos, obras, amores inacabados/ e revoluções por terminar./ Não era isto o combinado.// Alguns se despedem heroicos,/ outros serenos./ Alguns se rebelam./ O bom seria partir pleno.// O que faço? Ainda agora/ um apressou seu desenlaçe./ Sigo sem pressa. A morte/ exige trabalho, trabalho lento// como quem nasce”. (“Estão se Adiantando”, Affonso Romano de Sant’Anna)




Estava decidido a escrever sobre um tema mais ameno. Alguma atualidade que vem sendo debatida nos jornais ou nas redes sociais, que andam prenhes de material. Refugiados sírios, feminismo no Enem, a carestia dos brasileiros, enfim. Eu até já havia concebido uma estória interessante sobre violência urbana e aplicativos de celulares (esta, aliás, uma boa estória, mas que ficará para uma próxima oportunidade, se me for concedida).
Mas, justamente hoje, assisti um filme a que há muito tempo me propus a assistir: “Invasões Bárbaras” (“Les invasions barbares”, de Denys Arcand, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro do ano de 2003) e que trata justamente da morte e daquilo que, no final de nossas vidas, realmente importa.
Já faz algum tempo que venho me preocupando com a morte, cuja melhor definição, a meu juízo, é a que Vinícius de Moraes cunhou em seu maravilhoso “Soneto da Fidelidade”: a “angústia de quem vive”. Quem vive sente angústia. Pode até não temer a morte, mas angústia sente, é induvidoso.
E por que me preocupo com a morte, se doente não estou, se meus familiares e amigos gozam de boa saúde? O que me parece é que, a partir de determinada idade (e, no meu caso, o marco fatal foi o advento de 40º aniversário), paramos de somar e começamos a subtrair: 30, 20, 10, 5 anos. “Ipso facto”, nos apegamos cada vez mais ao tempo que nos resta e que teima em nos escapar (“tempus fugit”, como diziam os antigos). A isso alio a idade de nossos pais, tios, avós, cuja contagem regressiva já vai mais avançada.
E, devo dizer, não só o medo da perda nos assombra, mas também o modo como os derradeiros dias nossos e de nossos amados serão vividos.
De fato, as pessoas, nos dias atuais, graças aos avanços da medicina moderna e à ganância da indústria farmacêutica, já não morrem mais “ex abrupto”: vão morrendo aos poucos, minguando, a chama vital mantendo-se acesa à força de intubações e outros métodos artificiosos. São raros os casos em que é dado a um moribundo expirar nos braços dos seus familiares e amigos, no lugar que escolheu, nas condições que elegeu para tanto, talvez ouvindo aquela canção que mais marcou a sua passagem por este plano. A tendência cada vez maior é mesmo a morte lenta e indigna nos leitos das UTIs, rodeados por equipamentos e circundado por outros pacientes na mesma condição desumana, tendo por fundo musical o “pi-pi-pi” dos monitores e engenhocas de sustentação da vida. Sustentação da vida? Qual vida? Sustentar o quê?
O tema foi tratado com invulgar humanismo pelo autor americano Dr. Atul Gawande em seu livro “Mortais” (cujo título foi tomado de empréstimo para este artigo). A obra narra casos de doenças terminais em que pacientes escolhem a terapia de “cuidados paliativos” no lugar dos “cuidados intensivos”, minimizando as dores e aflições dos momentos derradeiros e procurando agregar ao resto de suas vidas, tanto quanto possível, mais momentos felizes e maior fortalecimento de enlaces afetivos.
Há uma passagem curiosa desse livro em que um emérito professor de psicologia deixou, de forma verbal, seu “testamento vital” para o filho: enquanto pudesse tomar sorvete de chocolate e assistir futebol na TV, que se fizesse tudo o que estivesse ao alcance para mantê-lo vivo. Observadas essas condições mínimas, para ele valeria a pena continuar a viver. Isso assegurou ao filho tranquilidade na hora da tomada das decisões nos momentos cruciais e, após a morte, propiciou um luto mais tranquilo a todos os familiares.
Não faz 15 dias, faleceu o inesquecível Luiz Carlos Miele. Miele, figura conhecida de todos aqueles que contam mais 40 anos de idade, viveu intensamente. Foi locutor de rádio, integrante da turma da Bossa Nova, adorava a vida (especialmente a noturna), produziu inúmeros shows. Enfim, comeu a vida com colher grande. Como morreu? De mal súbito. Em um átimo, apagou-se a chama vital, “sem dramas, sem gramas”. Simples assim.
Se eu pudesse escolher, gostaria de ter uma morte “miélica”. Morrer como um passarinho, como diziam nossos avós. Não temo perder a vida. Temo deixar para trás um passado de memórias de pessoas e fatos maravilhosos.
Voltando ao filme “Invasões Bárbaras”, Rémy, um professor universitário que viveu sua vida de modo intenso e até libertino, reconcilia-se com o filho e este, à revelia de sua vontade, mas amparado pela mãe (ex-mulher de Rémy), proporciona-lhe um final tranquilo, numa casa de campo, cercado de antigos amigos, tendo as dores da doença edulcoradas por generosas doses de heroína contrabandeadas, a mesma heroína que escolheu para ser o veículo de sua passagem para o outro plano.
É um belíssimo filme este “Invasões Bárbaras”. Tão belo quanto ele, a trilha sonora escolhida (a música “L’amitié”, de Jean-Max Rivière e Gérard Bourgeois, que não foi feita para o filme (data de muitas décadas antes), mas se encaixou à perfeição na trama).
Eis a letra da canção, em tradução livre: “Muitos de meus amigos vieram das nuvens./ Com o sol e a chuva como bagagem,/ Fizeram a estação da amizade sincera,/ A mais bela das quatro estações da Terra.// Têm a doçura das mais belas paisagens/ E a fidelidade dos pássaros migradores./ Em seu coração está gravada uma ternura infinita,/ Mas, às vezes, uma tristeza aparece em seus olhos.// Então, vêm se aquecer comigo./ E você também virá// Poderá retornar às nuvens/ E sorrir de novo a outros rostos,/ Distribuir à sua volta um pouco de sua ternura./ Quando alguém quiser esconder sua tristeza,// Como não sabemos o que a vida nos dá,/ Talvez eu não seja ninguém./ Se me resta um amigo que realmente me compreenda,/ Me esquecerei das lágrimas e penas.// Então, talvez eu vá até você,/ Aquecer meu coração com sua chama”.
Nestes dias, ando lendo a maravilhosa autobiografia de Oliver Sacks ("Sempre em movimento – Uma vida" (Companhia das Letras)), neurologista vencido pelo câncer no dia 30 de agosto último, autor, dentre outras obras lindas, de “Tempo de Despertar”, levada às telas de cinema em filme estrelado por Robin Williams e Robert De Niro (Robin Williams viria a decretar o fim de sua vida em agosto de 2014).
Sacks teve uma vida incrivelmente intensa. Em entrevista que concedeu ao Jornal “New York Times”, em fevereiro deste ano, ocasião em que revelou seu estado terminal de saúde, escreveu esta pérola que divido com os pacientes leitores: “Agora, cabe a mim escolher como viver os anos que me restam. [...]Tenho que viver da maneira mais rica, intensa e produtiva possível. [...] Nos últimos dias, pude ver minha vida de outro ângulo, como uma paisagem, e com um forte senso de conexão entre as partes. Isso não significa que me entreguei. Pelo contrário, me sinto intensamente vivo, e eu quero e espero, no tempo que me resta, aprofundar minhas amizades, me despedir das pessoas que amo, escrever mais, viajar se eu tiver forças, e alcançar novos conhecimentos. Mas também haverá tempo para um pouco de diversão (e até algumas tolices). [...] Não posso fingir que não tenho medo. Mas meu sentimento predominante é a gratidão. Eu amei e fui amado; doei-me e muito me foi dado; eu li, viajei, pensei e escrevi. Eu me relacionei com o mundo, o relacionamento especial entre escritores e leitores. Acima de tudo, eu fui um ser humano ciente, um animal pensante, neste belo planeta, e só isso já foi um enorme privilégio e aventura.”
Eis o meu testamento vital: quero morrer como Rémy, de “Invasões Bárbaras”, cercado pelos meus queridos, e animado pela coragem e pela altivez de Oliver Sacks. . Ah! E se a trilha sonora puder ser “My Way”, interpretada por Elvis Presley, ou “Thank You”, do Led Zeppelin, seria fantástico!

Como não pretendo, entretanto, deixar a vida tão cedo, finalizo lembrando a canção “Stay Around a Little Longer” (https://www.youtube.com/watch?v=emyt-agLE_s), dueto de BB King (r.i.p.) e Buddy Guy, desde já agradecendo ao Senhor por me permitir ficar aqui um pouco mais.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

NOVO CPC x Súmula - Direito Intertemporal - Honorários - Compensação

CONCLUSÃO
Autos nº 0471.11.008001-0
Aos 10 de agosto de 2015
Faço estes autos conclusos ao MM. Juiz de Direito


O Escrivão, ___________________

Vistos.
Cuida-se de embargos de declaração opostos por CEMIG DISTRIBUIÇÃO S.A. em relação à sentença de fólios 101-103.
Alega a embargante a existência de omissão no julgado porque, conquanto tenha-se reconhecido a sucumbência recíproca, deixou-se de se manifestar a respeito da compensação dos honorários advocatícios, ex vi do verbete nº 306 da Súmula da jurisprudência predominante no egrégio Superior Tribunal de Justiça.
É o RELATÓRIO do quanto necessário. Passo a FUNDAMENTAR e DECIDIR.
Conheço do recurso porque tempestivos.
No mérito, em que pese o aviso deste magistrado, no sentido da impossibilidade de compensação da verba honorária, o certo é que sobreveio, após candentes debates, o teor do verbete sumular acima mencionado. Assim, sempre reverente à função uniformizadora da jurisprudência emanada das Cortes Superiores, mesmo à falta de vinculação, verguei-me àquele entendimento.
Entrementes, a tese que havia restado vencida no âmbito do Tribunal da Cidadania, a qual perfilhava este magistrado, restou consagrada de lege lata no artigo 85, §14 do Código de Processo Civil, ainda em período de vacatio legis.
Eis, portanto, que o entendimento chancelado jurisprudencialmente estaria com seu supedâneo normativo em seus estertores (nesse sentido: Bueno, Cassio Scapinella, 'Novo Código de Processo Civil Anotado'. São Paulo: Saraiva, 2015, p. 101).
Confira-se o enunciado nº 244 do Fórum Permanente de Processualistas Civis, aprovado no Encontro realizado no período de 05 a 07/12/2014 na Capital Mineira, sob a coordenação do eminente Professor Fredie Didier Jr., verbatim:
Ficam superados o enunciado 306 da súmula do STJ (“Os honorários advocatícios devem ser compensados quando houver sucumbência recíproca, assegurado o direito autônomo do advogado à execução do saldo sem excluir a legitimidade da própria parte”) e a tese firmada no REsp Repetitivo n. 963.528/PR, após a entrada em vigor do CPC, pela expressa impossibilidade de compensação.


O que se tem hoje, portanto, é uma jurisprudência uniformizante em suas vascas, já com termo certo para a cessação de seus efeitos, e um comando normativo cuja eficácia encontra-se paralisada até o advento desse mesmo termo.
É dizer: Eventuais recursos que venham a ser julgados após o prazo de vacatio deverão observar a nova tessitura normativa, a teor do artigo 14 do novel códice.
Já há instaurada, portanto, mesmo antes da vigência do novo codex, situação anti-isonômica, pois que a solução para hipóteses idênticas pendentes de julgamento após a sanção da Lei nº 13.105, de 2015 merecerão soluções díspares conforme a data do trânsito em julgado, o que dependerá, em maior ou menor instância, da disposição da parte para interpor recurso, ainda que seja somente para postecipar a formação da res iudicata.
E pertencendo, como de lei, os honorários ao advogado a parte que por ele é patrocinada poderá ter a sua prestação jurisdicional atrasada apenas para o acertamento dessa pendência, o que não me parece ir ao encontro dos modernos cânones processuais.
Como vantagem adicional, pode-se impedir, na medida do possível, a interposição de recursos em prejuízo da presentânea atuação das Cortes estaduais e regionais.
Posto o conflito nestes termos, entendo por prestigiar a norma posta, conquanto ainda não vigente, mantendo incólume a sentença verrumada, não por conferir eficácia a uma norma que não a tem [que fique claro], mas por ela corresponder a um entendimento a respeito do vigente artigo 23 da Lei nº 8.906, de 1994.
Nessa ordem de considerações, CONHEÇO dos embargos e a eles NEGO PROVIMENTO.
P.R.I..
Pará de Minas, Wednesday, 21 de October de 2015


PEDRO CAMARA RAPOSO-LOPES
Juiz de Direito

RECEBIMENTO

Aos ___ de _______de 2015
Recebi estes autos

O Escrivão, ___________________


quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Pela Dignidade na Morte

"O Brasil não sabe cuidar de seus pacientes no fim da vida." "no Brasil, que tem dor, morre com muita dor". "No Brasil, não há uma educação para a morte, não estamos preparados para enfrentá-la." Estes são trechos de matéria publicada no jornal O Globo de hoje, que veicula pesquisa feita por entidade britânica morbidamente intitulada "Índice de Qualidade de Morte" e que coloca o Brasil na 42ª posição de um total de 80 países. Recentemente, li quatro livros que me chamaram a atenção para este problema: "Mortais", de Atul Gawande, "A Morte de Ivan Ilitch", de Tolstói, "A Balada de Adam Henry", de Ian McEwan e "A Visita Cruel do Tempo" de Jennifer Egan. Estou absolutamente convencido de que o sistema de cuidados paliativos e a ortotanásia são as únicas maneiras de assegurar um final de vida digno e, tanto quanto possível, indolor aos doentes terminais e aos pacientes que padecem de doenças crônicas. O 'suicídio assistido', aprovado nesta semana pelo Estado da Califórnia, nos EUA, após 2 anos de sérios debates e já admitido no Estado do Oregon desde 1994 e na Holanda de 2001, é parte desse contexto. O fato é que a prática indiscriminada da distanásia, que vem alimentando os cofres já prenhes de dinheiro da indústria farmacêutica, causa sofrimento ao doente e depressão aos familiares, após a morte do parente querido submetido a condições desumanas e degradantes de tratamento. A liberdade de consciência, consistente no direito de escolher o que se deseja para os momentos mais angustiantes da trajetória terrena, deve se sobrepor ao direito à vida, quando esta se mostre inviável ou assaz dolorosa, tão dolorosa que já não mais valha a pena vivê-la. É projeção do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, consagrado na Constituição da República. Direito a uma morte digna. Sou fã do "Testamento Vital", que consiste em "declaração escrita da vontade de um paciente quanto aos tratamentos aos quais ele não deseja ser submetido caso esteja impossibilitado de se manifestar", na precisão definição de LIPPMANN (Testamento vital: direito a dignidade. São Paulo: Matriz: 2013). É que no chorrilho de emoções que se seguem à constatação de uma situação terminal, geralmente a tendência de pacientes e familiares é de, contaminados pelo desespero, tomar providências inúteis e indignas, que povoarão para sempre a lembrança dos que ficarem. No livro de Gawande, acima citado, um emérito professor de psicologia deixou, de forma verbal, seu testamento vital para o filho, mais ou menos nos seguintes termos: enquanto eu puder tomar sorvete de chocolate e assistir futebol na TV, faça tudo o que estive ao seu alcance. Isso assegurou ao filho tranquilidade na tomada de decisões no momento mais crucial e, após a morte, propiciou um luto mais tranquilo. Lembro-me das últimas recordações que tenho de minha avó Mariazinha ( Maria Helena LopesMaria Beatriz CamaraBeatriz Lopes,Eduardo Camara Raposo Lopes), num CTI, entubada, com lapsos de consciência. Se tivessem dado a ela a oportunidade de um testamento vital, anos antes, intuo que ela dissesse: "façam tudo o que puderem enquanto eu puder tomar meu café com leite e assistir minha novela das 8". Isso poderia ter poupado tanta depressão aos filhos. De minha parte, eu já fiz mentalmente meu testamento vital. E espero que meus familiares façam o mesmo. Cuida-se de um ato de generosidade para consigo próprio e de caridade para os que ficam. Depois, nos entendemos com Deus.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

SOLIDÃO

SOLIDÃO


Quem não souber povoar a sua solidão, também não conseguirá isolar-se entre a gente. (Charles Beaudelaire)


Como de hábito, acordou antes mesmo do toque do despertador. Abriu os olhos. A luz do dia causou intenso incômodo, fazendo a pressão sobre a sua cabeça ainda mais dolorosa. A estratégia era sempre a mesma: cumprir as etapas passo a passo.
O primeiro era sentar-se na cama. O segundo, vestir os chinelos e vencer os poucos metros que o separam da cozinha, onde decerto o café forte ainda fumegante deixado por Adelaide o espera.
Na sala, deteve-se por um momento. Tudo em seu lugar, tudo em boa ordem. Na poltrona de tecido puído, sobre a almofada vermelha, a gata Shana, paixão de Mathilde, levantou sua cabeça e piscou duas vezes, como fazem os gatos por costume.
Tomou o café com muito vagar. O líquido tão amargo quanto necessário desceu como que rasgando suas entranhas, resultado dos excessos etílicos das últimas semanas.
Já no banheiro, defrontou a sua imagem reproduzida no espelho. Não sofria de autopiedade, mas ali procurava encontrar, ainda que por um milésimo de segundo, algum reflexo do que fora outrora, antes da insidiosa doença levar-lhe Mathilde.
As mãos trêmulas procuraram as pílulas brancas dentro do frasco. Sim, porque a ocasião pedia as pílulas brancas, não as vermelhas.
Já pensara, por certo, em despejar o conteúdo alvirrubro inteiro, de uma só vez, goela abaixo, para pôr fim à sua existência sem Mathilde. Desistiu. A uma, porque ainda sentia uma certa culpa católica em relação ao auto-extermínio (embora já não acreditasse em Deus ou em qualquer outra entidade metafísica); a duas, porque Mathilde certamente o reprovaria, ainda que o ato extremo viesse sob o romântico pretexto de ir ao seu encontro (o que certamente seria improvável, haja vista os caminhos certamente não coincidentes das almas dos amentes).
Até Almeida, do Departamento de Filosofia, havia conseguido êxito na empreitada suicida. Almeida era um merda, e disso todo mundo sabia. Uma unanimidade. Mas o suicídio tem a especial propriedade de emprestar uma aura de santidade mesmo aos merdas e aos pusilânimes, adjetivos que caíam muito bem ao Almedinha (não poucas vezes o havia flagrado a olhar cobiçosamente as pernas de Mathilde).
Espargiu pelo rosto a espuma de barbear. Achava digno de nota como, já a esta altura do campeonato, os fios de barba bem alvos ainda teimavam em germinar por sua face, como se seu corpo ainda pudesse produzir vida inédita, ainda que vida inútil, como cabelo na face e as unhas que já não tinham qualquer serventia.
Ligou a água tépida do chuveiro. A sensação da água descendo pelo seu corpo provecto era boa, como se alguém lhe fizesse carinhos pela nuca, pelo peito imberbe, pelo sexo inerte entre as suas pernas muito brancas, fazendo cócegas pelos tornozelos.
Apressou-se a vestir o terno que Adelaide deixara passado sobre a cadeira, na antessala. Já de saída, beijou, como de costume, a fotografia de Mathilde sobre o piano, o mesmo piano em que ela se assentava para tocar as Polonaises de Chopin, afagou carinhosamente a grande cabeça peluda da gata, certificando-se de que havia alimento suficiente.
Já na porta do edifício, dezenas de repórteres, como abutres à espreita, esperavam a sua saída, do que foi advertido pelo zeloso porteiro, possibilitando a fuga pela porta de serviço. Homiziou-se no Bar do Geraldinho, lugar insuspeito, onde, de um trago, bebeu de um conhaque de alcatrão e pôs-se a enfrentar os ônibus, já um pouco entorpecido pelo efeito da bebida.

Não muito distante, no átrio da Universidade, não houve como fugir do assédio dos muitos alunos que ali se acotovelavam. Foi ajudado pelos funcionários que o conduziram até a cochia e dali para a pequena porta que dava acesso ao palco. Abriu-a. Aplausos entusiasmados, flashes de câmeras fotográficas, rapazes e moças com seus muitos celulares em riste, todos ansiosos pela primeira leitura de seu inédito trabalho. Gente tanta! Por que não conseguem povoar a sua solidão? Antes da leitura, pegou-se a sorrir. Lá bem no fundo do anfiteatro, jurou que viu, por um átimo, Mathilde, em seu lindo e discreto vestido cor de pêssego, o mesmo que usou no dia de sua graduação. Ou seria apenas o efeito do conhaque de alcatrão?

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Sucesso e Justiça

SOBRE O SUCESSO E A JUSTIÇA




Tenho lido nas redes sociais e até em artigo de prestigiado jornalista global, por ocasião da morte de um cantor sertanejo, a respeito dos valores culturais de nossa sociedade e passei a refletir um pouco sobre os conceitos de “celebridade”, “sucesso”, “justiça” e “merecimento”.
Quando o acidente que vitimou o artista sertanejo Cristiano Araújo ganhou os jornais e mereceu ampla divulgação, muitos questionaram sobre o sucesso da desditosa vítima e como aquela notícia poderia se sobrepor a outras “mais importantes” para os brasileiros, haja vista o momento de “sofrência” pelo qual passamos.
Veio-me à mente o sucesso meteórico de Michel Teló e a sua canção “Ai Se Eu Te Pego”.
Há poucos meses, estava eu na “Festa do Rei”, em Amsterdam (o equivalente holandês ao nosso carnaval) quando, do alto de um “trio elétrico”, um artista local entoou a canção de Teló. Não se tratava, à evidência, de um cantor brasileiro. O público, em uníssono, cantou a música de cabo a rabo, sem errar uma estrofe (tudo bem que não são tantas estrofes assim), emprestando-lhes o sotaque local.
Tem mérito Teló? Tem mérito Cristiano Araújo? O que é mérito? O que é sucesso? O que é merecimento?
Historicamente, tem-se percebido que o sucesso é obtido quando o produto do pensamento se ajusta aos valores prestigiados por uma comunidade. Nesse sentido, Teló e seu 'hit' fazem jus ao prêmio não porque sejam merecedores. Merecimento pouco tem a ver com justiça, pois, caso essa premissa fosse verdadeira, professores ganhariam mais do que o Faustão, p.ex..
A justiça consiste em fazer com que o sucesso sirva como móvel para o desenvolvimento dos menos aquinhoados pelas arbitrariedades naturais (um professor dificilmente saberia cantar uma canção como 'Ai Se Eu Te Pego', assim como um talentoso pintor italiano de afrescos). A Justiça, nesse caso, consiste em taxar mais pesadamente os rendimentos auferidos com o êxito, promovendo a "justiça distributiva", bem assim com o pagamento dos direitos autorais aos proprietários da obra intelectual (que pode ser o intérprete ou o compositor).
O sucesso advém, no mais das vezes, de arbitrariedades naturais como, p.ex., nascer em família de melhor posição, ter mais tempo para o estudo, ser bonito, saber cantar etc. Não se igualam tais arbitrariedades aleatórias e naturais com a colocação de freios no sucesso com elas obtido (o que seria intervenção indevida na liberdade alheia), mas mediante medidas compensatórias que favoreçam aos menos aquinhoados.
Michel Teló e Cristiano Araújo fazem jus ao prêmio da forma mais legítima, porque seguiram as regras do jogo e ponto. Pode-se criticar o valor intrínseco da obra musical, mas o êxito, jamais, desde que as regras do jogo tenham sido seguidas à risca, de forma ética e de acordo com o que convém ao gosto e ao anseio da sociedade, o que é o caso.
É a sociedade quem dirá quem fará jus ao prêmio (isso nada tem a ver com "merecimento moral", repito), cabendo a justiça usar o fruto do sucesso para promover o bem geral.

Em síntese: SUCESSO TELÓ!, SUCESSO LUAN!, SUCESSO ANITTA!, SUCESSO IVETE!

Semana da Pátria - "Sob Escombros"

SOB ESCOMBROS




O ano: 2723 D.C.. O local: Algum lugar entre o ressequido leito do que outrora fora o Rio Oiapoque e o deserto do Chuí, ao norte do Uruguai. Ali, quase um século passado da hecatombe que dizimou centenas de milhões de pessoas famintas, resultado fatal do “efeito estufa”, um grupo de arqueólogos brasileiros debruça-se sobre uma descoberta interessantíssima: um pequeno cofre contendo arquivos magnéticos provavelmente datados do século XXI, que se encontrava sob escombros de uma antiga construção.
O material foi levado pelos cientistas com muito cuidado para os laboratórios da Universidade de São Paulo onde, após laboriosos exames de radiocarbono, chegou-se à conclusão de que datava, todo ele, do ano de 2015.
O material era composto basicamente por jornais digitalizados (método arcaico de armazenamento de grandes quantidades de informações), escritos e músicas daquela época.
Dentre as manchetes dos jornais de então liam-se as seguintes: “Governo prevê déficit de R$ 31 bilhões e aumento de tributos”, “Feliciano será candidato a prefeito de São Paulo”, “Dilma proporá a recriação da CPMF”, “PIB recua e recessão se alonga”, “Crise eleva endividamento dos municípios”, “Petrolão pode ter causado rombo de 80 bilhões”, “Investimento despenca e sinaliza mais longa retração desde o real”, “Inflação corrói salários em 15% dos reajustes”.
Todo material é encaminhado ao Departamento de História da Universidade de Federal do Amazonas, no sertão semi-árido brasileiro (em tempos idos, o que já fora a maior floresta equatorial do planeta). Os historiadores tinham muitas dúvidas a respeito de período histórico a que se referiam as notícias jornalísticas.
É que, muito embora o material tivesse idade certa, o colecionador, de forma proposital e misteriosa, havia eliminado as datas dos periódicos e escrito, em letras garrafais, o aforisma de Sócrates: “nosce te ipsum” (“conhece-te a ti mesmo”).
Todavia, como praticamente todas as notícias mencionavam, de forma direta ou indireta, a Polícia Federal, tudo foi reencaminhado imediatamento à sede do Departamento na capital brasileira, situada no pantanal alagadiço brasiliense (antes, aquela que fora uma região pouco aquinhoada pelas chuvas), onde peritos forenses e historiadores da Universidade de Brasília iniciaram seus estudos.
As dúvidas persistiam porque, em maior ou menor grau, todos os casos policialescos se assemelhavam a outros historicamente situados em épocas muito próximas uma das outras.
O escândalo do Petrolão (2015) foi associado ao do Mensalão (2005) e este, por sua vez, à Operação Satiagraha (2004). A menção ao nome do Deputado Federal Eduardo Cunha conduziu o rumo das investigações para a figura do então Presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, cujo escândalo particular datava, entretanto, de 2007 e envolvia a suposta ajuda de empreiteiros baianos no pagamento de pensão alimentícia a uma sua filha.
As investigações passaram a focar, portanto, no Congresso Nacional, porque não convém tornar a coisa pessoal.
Nos arquivos policiais, a relação mais aproximada que se conseguiu estabelecer com a Casa de Leis foi com o episódio dos “Anões do Orçamento”, de 1993 e com a pitoresca figura de um deputado baiano que havia tido a fortuna de ser premiado em 200 sorteios de loteria.
É nesse ponto que o caso se aproximou perigosamente do escândalo Coroa Brastel, de 1983. Estabelecido o intervalo de mais de trinta anos entre os arquivos encontrados e os casos catalogados, chegaram os pesquisadores à conclusão de que o melhor mesmo era dar tudo por visto e encerrado e mandar arquivar o material digitalizado nos escaninhos da Biblioteca Nacional, na Cidade do Rio de Janeiro.
Toda a estória que acima narrei passeia por diversos eventos históricos que sacudiram o Brasil ao longo de mais de trinta anos. E muitos outros há, datados da velha república, do regime ditatorial, e mesmo na época do Brasil ainda colônia se Portugal, com a espoliação do patrimônio autóctone promovida pela pátria-mãe e destinada às burras inglesas, espanholas, holandesas e francesas.
Acredito que o ponto central da estória talvez não tenha sido apreendido pela maioria dos leitores e que reside no pormenor de haver o colecionador de histórias eliminado as datas das notícias e escrito em letras garrafais a máxima socrática “nosce te ipsum” (“conhece-te a ti mesmo”), supostamente inscrita na entrada do Oráculo de Delfos.
Para Sócrates, conhecer-se é o ponto de partida para uma vida de equilíbrio. Se isso vale para pessoas, vale por certo também para instituições e nações.
O Brasil passa por momentos bastante difíceis e as perspectivas não são nada otimistas. Se tudo der certo, o ano de 2016 será tão ou pior para os brasileiros que o de 2015. Desemprego, queda do poder de compra, o recrudescimento do monstro da inflação, a indústria nacional reduzida a pó, o alargamento do abismo entre os muito pobres e os muito ricos. Desigualdade, miséria, violência, déficit civilizatório.
A mais triste notícia, todavia, é que todas as agruras pelas quais o povo brasileiro será obrigado a amargar poderiam ter sido evitadas. São todas elas tragédias anunciadas. Têm a ver, sim, com os sucessivos escândalos narrados sinteticamente na ficção de abertura deste trabalho, mas também com os remédios que vêm sendo ministrados para tentar trazer algum lenitivo à doença.
O Brasil, ao longo de seus pouquíssimos séculos de vida, teima em não aprender com as lições que a história lhe proporcionou e continua a lhe proporcionar a curtos intervalos. Corrupção, fisiologismo político, pilhagem do patrimônio público, promiscuidade entre o empresariado e o Poder Público, confusão entre o que é privado e o que é público, soluções de curto prazo para questões atávicas (que só fazem atrasar o crescimento), personalização do poder (talvez a grande herança maldita de nosso berço ibérico) são apenas alguns erros recorrentes de nossos próceres.
E a raiz de praticamente tudo está na precária educação que é subministrada aos governados e que se manifesta em todos os estamentos. Em recentes manifestações sociais, foram vistas pautas absurdas como a intervenção militar. Será que não aprendemos a nos conhecer a nós mesmos?
E a quem aproveita a eterna, cafona e démodé “summa divisio” política de “esquerda” e “direita”, posições que não fazem a menor diferença quando a vaca está indo para o brejo? A necessidade carece de dissensões. Quando o barco afundar, qual importância terá o lado que você ocupará no naufrágio? Solidariedade, diálogo, união é o que precisamos quando a coisa não está indo bem.
Falta-nos educação. Educação formal e educação como valor, como princípio, o único princípio capaz de trazer igualdade substancial (não igualdade de riquezas, mas de oportunidades). Sem educação não há memória. Sem memória, não há como cumprir o ideário socrático de nos conhecermos a nós mesmos para, somente então, não repetirmos os erros do passado.
Voltando à estória que narrava no início deste já longo discurso, no material arrecadado sob os escombros havia também, junto à coleção de manchetes atemorizadoras e ao adágio socrático, o seguinte trecho de um notável brasileiro chamado Ruy Barbosa, talvez o melhor coco que a Bahia já nos legou:
A pátria não é ninguém; são todos; e cada qual tem no seio dela o mesmo direito à ideia, à palavra, à associação. A pátria não é um sistema, nem uma seita, nem um monopólio, nem uma forma de governo; é o céu, o solo, o povo, a tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos e o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade.”
E havia também uma canção de um artista precocemente morto, cujo nome era Agenor de Miranda Araújo Neto, mais conhecido por Cazuza. A música chamava-se “Brasil” e no último verso trazia a seguinte mensagem: “Grande pátria desimportante, em nenhum instante eu vou te trair.”
Nós, brasileiros, jamais trairemos a nossa grande pátria.
Salve a semana da pátria!

(setembro de 2015)